
Por Laís Eduarda Chaves
Uma cidade pode ser muito mais do que o lugar onde vivemos. Ela também pode ser uma grande sala de aula, um espaço de descoberta e, por que não, um lugar para brincar.
Para uma criança, caminhar por uma rua pode despertar perguntas. Uma construção antiga pode virar uma história. Uma praça pode se transformar em cenário para uma aventura. E um detalhe na fachada de um edifício pode ser o começo de uma investigação.
É nesse encontro entre infância, cidade, arquitetura e descoberta que se encontra O Livro do Patrimônio Histórico de Curitiba: para crianças de zero a cem anos, da arquiteta e professora Giceli Portela, publicado pela Editora da UTFPR em 2023.
A obra apresenta 31 construções e espaços que fazem parte do patrimônio histórico de Curitiba, utilizando textos acessíveis, ilustrações e curiosidades para aproximar crianças e adultos da história da cidade. (Repositório UTFPR)
Mais do que contar a história de edifícios antigos, o livro propõe algo ainda mais interessante: olhar para a cidade com curiosidade.

Quantas vezes passamos por um lugar sem realmente observá-lo?
No cotidiano, prédios, monumentos, praças e ruas podem acabar fazendo parte da paisagem sem que saibamos muito sobre eles. Para as crianças, porém, a cidade pode ser apresentada de outra maneira.
"Quem construiu isso?"
"Por que esse prédio é assim?"
"Ele sempre esteve aqui?"
"Como era esse lugar quando meus avós eram crianças?"
São perguntas simples, mas que podem abrir caminhos para falar sobre arquitetura, história, cultura e memória.
É justamente essa aproximação que o livro busca promover. Com uma linguagem simples e convidativa, a publicação apresenta diferentes construções de Curitiba e traz até um glossário para explicar termos técnicos de maneira lúdica. No final, os leitores ainda podem interagir com as ilustrações, colorindo os desenhos das edificações.
A proposta parte de uma ideia poderosa: conhecer é também uma forma de criar vínculo.
Quando pensamos em cidades, é comum que a discussão seja conduzida a partir das necessidades dos adultos: mobilidade, trabalho, moradia, infraestrutura, comércio.
Mas como uma criança experimenta essa mesma cidade?
Ela não enxerga apenas ruas e edifícios. Ela observa, imagina, cria histórias, explora caminhos e transforma os espaços a partir da própria experiência.
Por isso, pensar em cidades para crianças não significa simplesmente criar mais espaços infantis. Significa também permitir que elas participem da cidade, compreendam seus espaços e desenvolvam uma relação de pertencimento com o lugar onde vivem.
O próprio Projeto Arquivo, responsável pela pesquisa que deu origem ao livro, trabalha nessa direção. Criado na UTFPR, o projeto reúne informações sobre o patrimônio histórico arquitetônico de Curitiba, com pesquisas, fotografias, ilustrações, descrições e curiosidades. O inventário já catalogou mais de 150 imóveis da cidade.
Ou seja, existe uma cidade inteira esperando para ser descoberta.

É aqui que o conceito de cidade brincável ganha força.
Uma cidade brincável não precisa transformar todos os seus espaços em playgrounds. Ela pode oferecer diferentes oportunidades para que as pessoas observem, explorem, interajam e criem novas experiências.
Uma praça pode ser um lugar de encontro.
Uma calçada pode ser um caminho de descoberta.
Uma construção histórica pode despertar curiosidade.
Um parque pode convidar à exploração.
Um equipamento interativo pode transformar um espaço público em uma experiência.
A brincadeira pode estar no movimento, na imaginação, na descoberta ou simplesmente na possibilidade de olhar para um lugar conhecido de uma maneira diferente.
Quando uma criança é convidada a observar os detalhes de uma construção histórica, por exemplo, ela não está apenas aprendendo sobre arquitetura. Está aprendendo a ler a cidade.
Existe uma relação interessante entre preservar o passado e criar experiências para o presente.
O patrimônio histórico guarda histórias que já aconteceram. Os espaços públicos, por outro lado, continuam sendo palco para novas histórias todos os dias.
Uma criança que brinca em uma praça hoje está criando uma memória que poderá carregar por muitos anos.
Talvez seja essa uma das grandes contribuições de pensar os espaços urbanos a partir da infância: entender que uma cidade não é feita apenas de estruturas físicas, mas também das experiências que acontecem dentro delas.
E isso vale tanto para um edifício centenário quanto para um espaço de brincar recém-criado.

O livro de Giceli Portela apresenta lugares como o Teatro Paiol, Passeio Público, Bondinho da Rua XV, Palácio Avenida, Casa Romário Martins e Paço Municipal, entre muitas outras construções que ajudam a contar diferentes capítulos da história de Curitiba. (Biblioteca UNM)
Mas a proposta pode ir além da leitura.
Que tal transformar um passeio pelo Centro em uma pequena investigação?
Escolher um edifício.
Observar suas formas.
Procurar uma janela diferente.
Descobrir quando foi construído.
Imaginar quem passou por ali.
Fazer um desenho.
Inventar uma história.
De repente, aquele lugar que antes era apenas parte da paisagem passa a ter significado.
E talvez seja justamente aí que começa o sentimento de pertencimento.
Existe uma frase que resume muito bem a proposta do livro: a ideia de que é através do conhecimento e do afeto pelo patrimônio que podemos contribuir para sua preservação.
Isso também nos ajuda a pensar sobre o futuro das cidades.
Uma criança que conhece o lugar onde vive pode desenvolver uma relação diferente com ele. Aprende a observar, questionar e valorizar aquilo que está ao seu redor.
E uma cidade que oferece espaços para descoberta, convivência, movimento e brincadeira cria oportunidades para que essas relações sejam construídas desde cedo.
No fim, pensar em cidades para crianças é pensar em cidades que valorizam as pessoas.
Talvez o título do livro seja justamente a melhor maneira de encerrar essa reflexão.
"Para crianças de zero a cem anos."
Porque criar cidades mais interessantes para as crianças não significa criar cidades exclusivamente infantis. Significa construir espaços onde diferentes pessoas possam estar, brincar, descobrir, conviver e criar memórias.
O patrimônio histórico preserva as histórias que vieram antes de nós. Os espaços públicos criam oportunidades para viver as histórias de hoje.
E quando as crianças podem observar, explorar, brincar e fazer perguntas sobre o lugar onde vivem, a cidade deixa de ser apenas um cenário e passa a fazer parte de suas próprias histórias.
Talvez esse seja um dos primeiros passos para construir cidades verdadeiramente brincáveis: permitir que as crianças não apenas estejam na cidade, mas descubram, experimentem e se reconheçam nela.
Este conteúdo foi inspirado na leitura de O Livro do Patrimônio Histórico de Curitiba: para crianças de zero a cem anos, de Giceli Portela, publicação da Editora UTFPR.
(Referência: PORTELA, Giceli. O Livro do Patrimônio Histórico de Curitiba: para crianças de zero a cem anos. Curitiba: Editora UTFPR, 2023).

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