
Por Laís Eduarda Chaves
Brincar é um direito de toda criança. Mais do que oferecer equipamentos, um playground pode criar oportunidades de movimento, descoberta, interação, autonomia e desenvolvimento. Para isso, porém, é preciso considerar que nem todas as crianças chegam ao espaço, percebem os estímulos ou participam das brincadeiras da mesma maneira.
É nesse contexto que o conceito de playground inclusivo ganha importância. Inclusão não significa apenas permitir o acesso físico ao espaço, mas criar condições para que diferentes crianças possam chegar, permanecer, escolher como brincar e encontrar atividades que façam sentido para elas.
O UNICEF destaca justamente a importância de respeitar os ritmos e a individualidade de cada criança ao promover o direito de brincar.
Um playground acessível reduz barreiras físicas. Um playground verdadeiramente inclusivo vai além: oferece diferentes possibilidades de movimento, interação, exploração, estímulo sensorial, desafio e descanso.
Uma revisão de 35 estudos sobre playgrounds inclusivos identificou recomendações relacionadas não apenas aos equipamentos, mas também aos acessos, caminhos, pisos, variedade de atividades, espaços de pausa e participação das famílias no processo de concepção. Isso significa pensar no playground como um conjunto.
A entrada precisa ser acessível. Os caminhos precisam permitir a circulação. Os equipamentos devem oferecer diferentes formas de participação. O espaço precisa contemplar diferentes níveis de desafio e diferentes formas de interação. E, principalmente, a criança precisa ter escolhas.
Não existe uma maneira 'correta' de brincar. Algumas crianças buscam atividades de grande movimento e desafio. Outras preferem atividades mais tranquilas. Algumas gostam de brincar em grupo, enquanto outras podem preferir brincar sozinhas ou próximas de outras crianças, sem necessariamente participar da mesma atividade.
Para crianças neurodivergentes, essas diferenças podem ser ainda mais relevantes. A forma de perceber estímulos, processar informações, interagir e se relacionar com o ambiente pode variar bastante de uma criança para outra.
Por isso, um playground inclusivo não deve partir da ideia de que todas as crianças precisam utilizar os equipamentos da mesma forma. O objetivo é oferecer diferentes possibilidades de experiência.
A própria KOMPAN, parceira da Rubber, destaca que um playground inclusivo deve contemplar tanto a interação social quanto oportunidades para brincadeiras individuais, além de diferentes níveis de atividade e estímulo.
Em um playground, nem tudo precisa acontecer no centro da ação. Espaços parcialmente protegidos, cabanas, pequenos refúgios e áreas de menor intensidade podem funcionar como lugares de pausa. Eles permitem que a criança se afaste temporariamente de estímulos mais intensos, observe o que acontece ao redor ou simplesmente tenha um momento de tranquilidade.
Essa variedade é importante porque um playground inclusivo não deve oferecer apenas atividades. Ele também precisa oferecer possibilidades de escolha entre diferentes níveis de estímulo.
A literatura sobre design inclusivo recomenda justamente a presença de espaços que permitam momentos de brincadeira individual e redução da sobrecarga de estímulos, além da distribuição de diferentes experiências sensoriais pelo playground.
A KOMPAN trabalha o conceito de inclusão a partir de uma abordagem de design universal, considerando que o playground deve ser acessível, convidativo e interessante para crianças com diferentes habilidades e necessidades.
O KOMPAN Play Institute organiza essa abordagem a partir de uma pergunta simples: todos conseguem chegar, permanecer e brincar?
Essa perspectiva é importante porque inclusão não deve significar criar um playground com atividades consideradas "mais fáceis" para determinados usuários. Pelo contrário: crianças diferentes também precisam encontrar oportunidades de desafio, movimento e descoberta.
Entre as possibilidades desenvolvidas pela KOMPAN estão equipamentos que ampliam as formas de participação no playground.

O Universal Carousel permite que diferentes crianças compartilhem uma mesma experiência de movimento, criando uma atividade coletiva que pode acomodar diferentes formas de participação.
Mais do que adaptar uma atividade existente, a proposta é permitir que diferentes crianças participem da mesma experiência de brincadeira.
O Basket Swing oferece uma experiência de balanço com maior suporte corporal, criando outra possibilidade para crianças que preferem ou precisam de uma forma diferente de utilizar o balanço.
Além disso, pode favorecer a brincadeira compartilhada, transformando o movimento em uma experiência social.
O Inclusive Net Twister combina movimento, desafio e interação.
Esse tipo de equipamento reforça um princípio importante do design inclusivo: inclusão não significa eliminar o desafio. Um playground pode ser acessível e, ao mesmo tempo, oferecer experiências que estimulem coragem, coordenação, equilíbrio e exploração.
Painéis interativos, elementos táteis, diferentes texturas, atividades musicais e outros recursos sensoriais também ampliam as possibilidades de brincadeira.
Eles permitem que a experiência do playground não dependa exclusivamente de correr, subir, escorregar ou balançar.
A KOMPAN aponta a variação das atividades, o acesso a experiências no nível do solo e em estruturas elevadas, a interação social e a presença de desafios como alguns dos princípios importantes para playgrounds universais.
Quando pensamos em inclusão, é comum imaginar que o objetivo seja fazer com que todas as crianças brinquem juntas. Mas isso não precisa acontecer o tempo inteiro.
Uma criança pode brincar sozinha, observar outras crianças, brincar ao lado de alguém sem participar da mesma atividade, interagir em uma dupla ou participar de um grupo maior. Todas essas formas de interação fazem parte da experiência de brincar. Um bom playground pode oferecer essa progressão:
O chamado parallel play, ou brincadeira paralela, também pode ser uma experiência social importante. Duas crianças podem estar próximas, utilizando diferentes equipamentos ou realizando atividades distintas, sem que isso signifique ausência de interação.
O próprio conceito de playground inclusivo da KOMPAN considera a necessidade de contemplar tanto grupos maiores quanto brincadeiras individuais.
Um erro comum ao pensar em inclusão é associá-la à simplificação. Mas uma criança que precisa de uma determinada condição de acessibilidade não necessariamente quer uma atividade menos desafiadora.
Um playground inclusivo deve oferecer diferentes níveis de dificuldade, permitindo que cada criança encontre desafios compatíveis com suas características, interesses e momento de desenvolvimento.
A revisão científica sobre design inclusivo recomenda justamente a existência de uma variedade de equipamentos e níveis de desafio, evitando que a inclusão seja reduzida a atividades de baixa complexidade.
Isso pode significar oferecer diferentes alturas, movimentos, graus de equilíbrio, possibilidades de escalada, percursos e experiências. A inclusão está na variedade de escolhas, não na redução das possibilidades.
Nem toda experiência precisa acontecer em uma torre ou estrutura elevada. Atividades no nível do solo podem ampliar significativamente as possibilidades de participação, principalmente quando estão distribuídas ao longo do playground e conectadas aos caminhos de circulação.
Painéis, elementos sensoriais, atividades musicais, jogos, superfícies interativas e outros recursos permitem que a criança participe mesmo quando não deseja ou não pode acessar uma estrutura elevada.
A KOMPAN coloca o acesso a atividades relevantes no nível do solo entre os seis principais pontos de design para playgrounds universais.
Pensar em inclusão significa olhar para o playground inteiro.
É preciso considerar:
A revisão publicada na Frontiers in Rehabilitation Sciences reforça que caminhos largos, firmes e contínuos, entradas desobstruídas, superfícies adequadas e conexão entre diferentes áreas são componentes fundamentais para uma experiência inclusiva.
A UNICEF também destaca a importância de uma abordagem centrada nas crianças e de processos participativos na criação de playgrounds inclusivos.
A KOMPAN resume essa lógica em três perguntas simples:
Can users get around?
Can they stay?
Can they play?
Ou seja:
As crianças conseguem chegar e circular?
Conseguem permanecer no espaço com conforto?
Encontram maneiras significativas de brincar?
Essa abordagem ajuda a ampliar a discussão sobre inclusão.
Não basta instalar um equipamento acessível se o caminho até ele cria uma barreira. Não basta garantir a circulação se a criança chega ao equipamento e não encontra uma atividade que possa ou queira realizar.
A experiência precisa ser pensada como um todo.
O piso costuma ser tratado apenas como uma questão técnica, mas ele também pode participar da organização do playground.
O Piso EPDM, por exemplo, pode contribuir para criar percursos, delimitar áreas, marcar transições e organizar visualmente diferentes zonas de atividade, além de cumprir sua função relacionada à absorção de impacto quando especificado adequadamente.
Em um playground inclusivo, a distribuição dos espaços e a clareza dos percursos podem facilitar a compreensão e a autonomia de diferentes usuários. Por isso, piso, circulação, equipamentos e paisagismo devem ser pensados de maneira integrada.
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes.
Inclusão não significa criar um espaço paralelo para algumas crianças. Significa criar um playground em que diferentes crianças possam compartilhar o mesmo ambiente, mesmo que não utilizem os equipamentos da mesma maneira.
A literatura sobre playgrounds inclusivos aponta justamente para a importância de combinar acessibilidade física com oportunidades reais de participação, interação e escolha.
O objetivo não é fazer com que todas as crianças façam exatamente a mesma coisa.
É permitir que estejam juntas, cada uma encontrando suas próprias formas de explorar o espaço.
Um playground verdadeiramente inclusivo não é aquele em que todas as crianças conseguem fazer tudo.
É aquele em que todas encontram algo que podem fazer, explorar, descobrir e aproveitar, com o máximo possível de autonomia.
Isso exige olhar além do equipamento e considerar a experiência completa: chegada, circulação, permanência, estímulos, desafios, interação, descanso e diferentes formas de brincar.
Porque inclusão não significa construir um lugar especial para algumas crianças.
Significa construir um lugar em que todas as crianças sejam convidadas a brincar.
KOMPAN Play Institute. What is Inclusive Play. KOMPAN. Acessar referência
KOMPAN Play Institute. Play for All: Universal Designs for Inclusive Playgrounds. KOMPAN. Acessar referência
BROWN, Denver M. Y.; ROSS, Timothy; LEO, Jennifer; et al. A Scoping Review of Evidence-Informed Recommendations for Designing Inclusive Playgrounds. Frontiers in Rehabilitation Sciences, 2021. Acessar artigo científico
UNICEF Brasil. Incluir Brincando. UNICEF. Acessar referência
UNICEF Serbia. Good Practice Guide on Building an Inclusive Playground. UNICEF, 2021. Acessar guia
BROWN, Denver M. Y.; et al. A Scoping Review of Tools to Evaluate Existing Playgrounds for Inclusivity of Children with Disabilities. Frontiers in Rehabilitation Sciences, 2022. Acessar artigo científico

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