
Por Luciano Simão
No primeiro capítulo da série História dos Playgrounds, investigamos a trajetória de um dos brinquedos mais conhecidos da nossa infância: o balanço. Descobrimos que, muito antes de ocupar os parques e playgrounds, o movimento de balançar já fazia parte de diferentes culturas e práticas ao longo da história.
Agora, chegou a vez de outro velho conhecido. Presente na infância de muitas gerações, o escorregador parece ter uma história simples: uma estrutura inclinada, uma descida empolgante e a euforia de chegar ao final. Mas como essa brincadeira surgiu? E quando o escorregador passou a fazer parte dos playgrounds?
Para responder a essas perguntas, precisamos voltar no tempo e investigar a trajetória desse equipamento, que acompanha a própria transformação dos espaços dedicados à infância.
Deslizar por uma superfície inclinada é uma experiência intuitiva. Afinal, basta uma diferença de altura e uma superfície adequada para que o corpo comece a se movimentar sozinho graças à ação da gravidade.
Mas existe uma diferença entre utilizar uma inclinação para transportar objetos e construir uma estrutura com o propósito de proporcionar oportunidades de diversão.
Em A Short History of the Slide (2006), o pesquisador Roy Kozlovsky investiga justamente essa transformação. O autor aponta que os primeiros registros textuais e visuais de escorregadores utilizados para entretenimento aparecem entre o fim da década de 1860 e o início da década de 1870.
Isso não significa, necessariamente, que a prática tenha começado naquele período, mas indica um momento em que ela passou a deixar registros históricos mais claros.
Entre as referências importantes estão os chamados Russian ice slides (escorregadores de gelo russos), estruturas construídas com gelo para proporcionar descidas em alta velocidade. Também ganharam popularidade os Human Toboggan Slides, atrações nas quais as pessoas deslizavam por percursos preparados para essa finalidade.
Essas experiências ajudaram a consolidar o ato de deslizar como uma forma de entretenimento e abriram caminho para estruturas cada vez mais elaboradas.

Durante o século XIX, as atrações recreativas passaram por transformações importantes. Um exemplo citado por Kozlovsky é a patente norte-americana de 1869 para uma atração chamada Artificial Sliding Mountain, que demonstra o interesse em reproduzir artificialmente a experiência de deslizar.
Parques de diversão também começaram a explorar esse tipo de entretenimento, com estruturas que ofereciam descidas mais longas e experiências de maior intensidade. A famosa Coney Island, em Nova York, tornou-se um dos espaços emblemáticos desse processo. Ao mesmo tempo, outra transformação acontecia: a criação de espaços organizados para as crianças brincarem.
Entre o fim do século XIX e o início do século XX, os playgrounds começaram a ganhar espaço em cidades europeias e norte-americanas. Esses ambientes reuniam equipamentos destinados a diferentes experiências de movimento e exploração para as crianças. Entre eles estavam quatro elementos que ficaram conhecidos como os quatro Ss: swing, seesaw, sandbox and slide (balanço, gangorra, caixa de areia e escorregador).

O escorregador, portanto, passou a integrar uma nova concepção de espaço infantil. A brincadeira de deslizar, antes associada a diferentes experiências recreativas, ganhou uma estrutura própria nos ambientes destinados ao lazer das crianças.
Os primeiros registros de escorregadores em playgrounds ajudam a visualizar como esses equipamentos começaram a se espalhar.
Entre os primeiros exemplos encontrados estão um escorregador instalado em Washington, em 1902, e outro construído em bambu em Nova York, em 1903. Este último teria sido instalado em um espaço frequentado especialmente por crianças de famílias imigrantes.
Outro exemplo marcante é o Smith Memorial Playground, na Filadélfia. Em 1905, o local já contava com um enorme escorregador, descrito pela publicação britânica We Are Tricycle como uma estrutura de aproximadamente 45 pés de altura, equivalente a cerca de 13,7 metros. A dimensão ajuda a entender como o escorregador também podia assumir proporções monumentais, muito além dos modelos que encontramos na maioria dos playgrounds atuais.
No Reino Unido, o engenheiro Charles Wicksteed teve papel importante no desenvolvimento dos equipamentos infantis. Fundador do Wicksteed Park, ele é associado à criação de um dos primeiros escorregadores construídos especificamente para crianças no país, instalado no parque em 1922.

Esses exemplos mostram que, no início do século XX, o escorregador já começava a se consolidar como parte dos espaços organizados para a brincadeira. Não há, porém, um único inventor ou uma data definitiva que marque o nascimento do escorregador como o conhecemos hoje.
A história do escorregador também acompanha a transformação dos materiais utilizados na construção dos playgrounds.
Os primeiros modelos eram frequentemente feitos de madeira. Embora o material permitisse construir estruturas de diferentes dimensões, também exigia manutenção constante e podia apresentar problemas como desgaste e farpas.
A partir da década de 1920, o metal ganhou espaço na fabricação dos equipamentos. As estruturas metálicas ofereciam maior resistência e reduziam algumas dificuldades de manutenção, mas também trouxeram novos desafios. Em dias quentes, por exemplo, as superfícies podem atingir temperaturas elevadas e causar desconforto ou queimaduras. Em períodos frios, o contato com o metal também pode ser desagradável.
No período posterior à Segunda Guerra Mundial, o plástico passou a ser utilizado com mais frequência. O material ampliou as possibilidades de formatos, cores e configurações, contribuindo para a diversificação dos modelos disponíveis.
Cada etapa dessa evolução trouxe novas possibilidades para o design dos playgrounds, mas também exigiu soluções para os desafios apresentados por cada material.

Com o passar do tempo, o escorregador deixou de ser apenas uma estrutura reta e inclinada. Novos formatos ampliaram as possibilidades de construção e transformaram o equipamento em um elemento de destaque nos espaços de brincar e nos parques de diversão. Entre as configurações que se popularizaram estão os modelos ondulados, em espiral e em tubo.
O encanto do escorregador reside na combinação da expectativa da subida, da aceleração da descida e da euforia da chegada.
Em A Short History of the Slide, Kozlovsky explora uma característica interessante dessa experiência: a relação entre medo e prazer. A descida pode provocar uma sensação de vertigem e perda momentânea de controle, mas acontece dentro de uma estrutura que permite à criança experimentar esse desafio de maneira delimitada.
Por isso, o escorregador permanece como um dos equipamentos mais reconhecidos pelas crianças. Sua escolha, porém, precisa considerar aspectos como faixa etária, altura, inclinação, materiais, área de circulação e superfície de impacto. Esses elementos devem ser avaliados em conjunto com as características do projeto e as condições de instalação e manutenção.
A história do escorregador nos mostra que até mesmo as brincadeiras mais familiares carregam transformações importantes. E, embora os formatos e materiais continuem evoluindo, a experiência de deslizar segue presente nos espaços de brincar.

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